Viver a vida
No cinema, quando os actores dizem “lifetime”, a tradução é quase sempre “vida”, o que está mais ou menos bem. O literal “tempo de vida” usa-se em português com o significado de “tempo que ainda tenho / temos de vida”. Claro que no nosso tempo de vida há outras pessoas vivas: os nosso contemporâneos. Nesse sentido, “lifetime” designa, digamos, a “época”, ou, não tão bom, a “geração”. A definição do Cambridge Dictionary confunde e ajuda: “The period during which someone is alive or something exists”. Tecnicamente, uma coisa não tem “vida”, mas “existência”, para os humanos, é melhor do que “vida”. Bem sei que soa pretensioso, sobretudo depois da invenção do “existencialismo”; mas o que se perde em coloquialidade, ganha-se em densidade. Gente com impaciência kierkegaardiana (essa corja), estará menos interessada em viver a vida de trás para a frente do que em entender a vida da frente para trás. E quando nos interrogamos acerca do sentido da vida não estamos bem a viver. Vale mais viver a vida, então, do que entendê-la? Provavelmente, porque o fim é certo e o sentido é duvidoso.

Só tenho dúvidas sobre a afirmação de que "quando nos interrogamos acerca do sentido da vida não estamos bem a viver".
Nas Confissões, Tolstoi escreve algo como (parafraseio) "é quando penso em Deus que me sinto mais intensamente vivo".
Os não crentes podem substituir "Deus" por, v.g., "questões essenciais de filosofia" e fazer a experiência.