O quarto tão escuro e a janela tão larga. O mau tempo abranda quando acordo, a última chuva atirada contra o vidro, mais do que caída. Nada a ver com o furacão do ano passado. É uma tempestade meteorológica, não alegórica, uma carga de água e não um tufão. Tudo o que há a saber começa aqui e aqui termina, vem no boletim. Pode haver retrocessos, mas a constrição na garganta, no esófago e nos rins é bem diferente, passa com a prescrição. O serviço de saúde funciona melhor do que a ambição de bondade e comparência, onde isso já vai. Os clássicos estão na moda agora, pego no telefone para ter a certeza de que Zeus é o deus da chuva e dos relâmpagos, isso confirma-se, mas não conhecia estas “híades”, ninfas que o mesmo Zeus transformou em constelação e prenúncio. Diabo dos gregos. Que trajecto este, senhores ouvintes, uns resquícios amargos onde antes estava um desamparo, uma sensação anterior à circunstância, mas que a circunstância propiciou. Hoje aconteceu o que ontem vinha no jornal, não mais. Dependo da natureza, como toda a gente, mas ja não estou dependente de expectativas. A natureza e eu somos incomensuráveis. Comparem isso com o equívoco humano. Que trajecto, senhores ouvintes, do desamparo ao IPMA. O mundo parece agora mais seguro, nada está em jogo. Esta é uma manhã como as outras, apenas num andar mais alto, em contraste com uma espécie de corredor monástico onde fiz o recobro enquanto havia desabamentos, tectos cediam e telhados voavam. Que desabitado era o mundo que perguntava como estás e nem ouvia a reposta. A chuva parou, senhores ouvintes, ou amainou, mas todo o cuidado é pouco.
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As Híades, poeira estelar junto da constelação de Touro. Numa das versões do mito transformaram-se em estrelas de tanto chorarem a morte do irmão Hiás, ficando nomeadas como as chorosas. Noutra versão será Zeus que as faz estrelas . Acreditavam os helenos que quando eram avistadas no céu era sinal de chuva benéfica, normalmente primaveril. Se esta chuva são as lágrimas das Híades, é um bom prenúncio. Ou estão a derramar água para proteger as colheitas (mas isso seria mais na primavera); ou estão a chorar a história de alguém para, assim, a transmutar. Mudanças boas acontecem quando as Híades decidem tomar partido pelos humanos.
A grande questão é que os helenos acreditavam nos seus mitos. Já nós, teremos essa capacidade?
Ainda bem que voltámos a convocar a mitologia grega, nem que tenha sido por um motivo bizarro.
Na cultura popular portuguesa (nordeste transmontano e beiras essencialmente) há um pássaro, alveóla-cinzenta, que cumpre a mesma função. Quando o avistamos é sinal que a chuva vai chegar, normalmente em forma de tormenta.