Quase humanos
É provável que, mais tarde ou mais cedo, chegasse aqui. Uma linha recta tem sempre um momento em que termina. Se esperava isto assim, sem seriedade, apenas esforço e desforço? Não esperava, e até tenho vontade de dizer que não merecia. Fui talvez útil nem sei bem em quê, até me declararem inútil, sem disso me notificarem. Atropelamento e fuga? Tanto faz. A história só tem protagonista, mais ninguém aparece, é como o documentário sobre o Zidane. Eu fui cortado na montagem final, não faço parte da narrativa, não tenho lugar. Sou um aparelho inanimado qualquer, um aspirador, digamos, que uma vez desligado não tem função. Não houve decepção nenhuma, impossível acreditar nessa hipótese, tratou-se somente de experimentar um electrodoméstico numa loja. Julguei-me objecto não sei bem de quê, uma vez que não era decerto um sujeito. Sem explicação, sem contexto, ocupava um lugar periférico na vida da protagonista, a protagonista queria uma fantasia sem fantasma, prazer sem as habituais ocorrências. Depois era urgente gerir-me, porque não era possível desligar-me. Fui ficando. Incapaz, inútil, insistente quando devia estar calado, considerava todos os outros homens, e a sua afeição aos homens, sem a verdade do amor nem a entrega do desejo. Quando estivemos juntos, alguma vez estivemos juntos? Eu já era redundante, e aliás não sou o seu tipo de homem, ela abdicava da estética, mas não da auto-estima. Deu-me umas semanas, perdi densidade, deu-me uns meses, fui perdendo o uso. E há muito que sou isto apenas, máquina falante, quando chegamos em tempos a ser quase quase humanos.

Nunca há só um protagonista, mas isso não importa agora.
Belíssimo texto. Isso sim, importa agora.