Prova de vida
O impressionante auto-retrato de Lucian Freud todo em esboço, sem cores, com excepção de um círculo onde o quadro parece acabado, com a ponta dos dedos de uma das mãos, boa parte da cara, o nariz, os olhos, a testa, uns cabelos em desalinho. Fiquei um bom bocado a olhar para ele na National Portrait Gallery. As mãos no rosto são de espanto, é um homem a ver-se ao espelho, a fazer a barba, a comprovar com os dedos a sua existência? Não sabemos. O que quer que ele queira ou faça, uma coisa a certa: o quadro terminado convive com o quadro esboçado, é um retrato inacabado acabado. Mais do que uma prova de vida, a sugestão de que o ser e o não-ser coexistem, ao contrário do que ensinam os filósofos. A existência nítida da zona central do rosto aponta para um desenvolvimento possível, mas não necessário, do resto do quadro; é como se com esta amostra não valesse a pena termos a imagem acabada, que já existe em potência. Mas há outra forma de entender esta imagem: vê-la como um rosto vivo desbotado nos seus traços, e retrocedendo ao esboço, como a nossa vida regressa ao pó do qual procede.


Um pintor que soube ser discreto enquanto humano, fenómeno raríssimo no campo artístico. Esta obra toca-me particularmente ao colocar a nu a falha e o sintoma.