Imagem, impressão
O cânone dos Cure merece revisitação periódica, e não apenas para salvar as canções pós-Desintegration, quando a banda perdeu os favores críticos; até nos álbuns unânimes há óptimos temas muito pouco recordados. Vejam a canção sobre Mary Poole, a namorada, e mais tarde mulher, de Robert Smith, ligação que vem desde o tempo em que ele ainda não usava maquilhagem. Intitulada pudicamente “M” (e bem podia ser uma referência a Fritz Lang), a oitava faixa de Seventeen Seconds (1980) acompanha o estado dubitativo que preside aos encontros iniciais. Há uma jovem a dançar, e o “eu” comenta os movimentos dela, tanto os movimentos de dança quanto as aproximações a outros homens (a incerteza e a frustração também se movimentam no texto: “armadilha de luz”, “direções erradas”, um “ataque” iminente). Isto não é um vai-ficar-tudo-bem, o “eu” julga-se até sem grandes hipóteses (ainda nem a conhece e já está a dizer “before you fade away”). Longe do registo “gótico”, mas também da leveza pop de meados da década de 1980, “M” pertence musicalmente à “linha clara” dos Cure, com o jogo das guitarras, aqui bastante compostinhas, mas viciantes nas suas repetições e interacções. É uma canção-de-amor-só- que-não, com momentos líricos que tentam definir uma dialéctica entre o presente e o futuro. Assim, diz-se que a rapariga faz isto, vejam só: “You reveal all the secrets to remember the end / And escape someday”. Se ela revela os seus segredos para se lembrar do fim e um dia fugir, este grau de desconfiança sugere más experiências e estratégias de sobrevivência. Tal como na pista de dança, ela anda para trás e para a frente: confessa, revive, guarda memórias, projecta. Vais ter de te aplicar, Robert (e aplicou). Mas reparem como o verso de abertura, cândido, inabitual, enuncia o vaivém da sedução e do receio, como se cada pessoa fosse para a outra um enigma, uma figura, uma ideia: “Hello image”. Nada mais: “Hello image”, a palavra com que começa qualquer abordagem, “olá”, e outra que contém todas as exaltações e potenciais desilusões, “imagem”. E um substantivo, “imagem”, usado como um adjectivo. Estás a ver isto, John Donne? Tão cedo, e de modo tão incerto, ele reconhece que ela é uma imagem na sua cabeça, não matéria, não fantasia, mas impressão que fica quando tudo o mais se dissolve.


Deus e os Cure. Mesmo patamar, mesmo poder, mesmo tudo.....