Freaks
Há vinte e sete anos, tanto tempo, até custa, Aimee Mann disse-nos a cada um, como se mais ninguém estivesse a ouvir, que precisamos de que alguém nos salve. Conheço a objecção: fujam dessa ideia, não são os outros que nos salvam, a salvação “vem de dentro”, ou não há salvação nenhuma, etc. Mas Aimee não sugere que entreguemos a vida nas mãos de terceiros. “Save Me” não é sobre a salvação, mas sobre a libertação. É um “save me from”: salva-me do amor com o teu não-amor. Em vez de fazermos dos outros instrumento da nossa salvação, pedimos ajuda a quem vê o amor como um instrumento. Aimee formula isso de modo expositivo: “If you could save me / / from the ranks of the freaks that suspect / They could never love anyone”. E a seguir de modo feroz: “Except the freaks / Who could never love anyone”. Os que suspeitam que não amam ninguém amam os que não amam ninguém: fica tudo em família. Talvez não seja isto, Aimee, mas assim me soou ontem à noite a meio de uma insónia.

